Chile, San Pedro de Atacama e Argentina, Tilcara - os planos mudam e voltam a mudar

Parabéns a você em San Pedro de Atacama!


Parabéns frios mas felizes nos meus 30 anos de vida!


Com delicadeza pus no garfo, prateado e sólido, um pedaço de pimento vermelho assado, outro de queijo camembert, um outro com um cogumelo selvagem e na ponta umas tiras de cebola caramelizada. Como se tratava de um verdadeiro acto solene, aproximei aquela união de ingredientes da minha boca, fechei os olhos, e deixei o calor do pimento, os odores adocicados da cebola, e o cheiro ácido cremoso do queijo, entiçarem o meu nostrilis. Depois, num movimento em câmera lenta, pus na boca aquele arco-íris de sabores que se difundiu pelas minhas papilas gustativas como os ventos da primavera espalhando flores pelas ruas. Tinha diante de mim a mais deliciosa tábua de queijos, originalmente preparada numa combinação de pimento assado na brasa, amêndoas, nozes, pinhões, cebola caramelizada, vários tipos de cogumelos selvagens simplesmente salteados em muito bom azeite e, como não podia deixar de ser, uma boa selecção de queijos europeus. Do lado direito, em frente ao meu prato de cerâmica fina, um grande copo de vidro transparente que emitia uma luz vermelha escura como se fosse um rubi gigante, o precioso sangue da terra, o vinho!

Dentro daquela redoma de conforto e sofisticação, o altiplano estava distante; distante com a sua ausência de comida, de luxo, de calor. Com os contratempos dos dias anteriores tínhamos conseguido libertar-nos do frio e da dureza a tempo para celebrar o meu 30º. aniversário, no dia 22 de Julho. Nesse mesmo dia havíamos saído de Laguna Verde rumo a Hito Cajon, a fronteira da Bolívia com o Chile. Eram só cerca de 12 quilómetros, mas as subidas e o vento frio continuavam. Com o selo de saída carimbado e estrada pavimentada do outro lado da fronteira seguimos montanha abaixo, num vertiginoso downhill que me obrigava a parar com frequência para aquecer os meus dedos que congelavam a cada 10 minutos.




Descemos dos 4600 aos 2527 metros com o Deserto de Atacama à nossa frente. - uma paisagem avermelhada, desolada rodeada por grandes vulcões, semelhante às imagens da NASA do Planeta Marte; E com o aproximar a altitudes mais terrenas, o Atacama, o maior deserto do mundo, enviava desde as suas areias e extensões rochosas lunares as primeiras lufadas de ar quente que sentíamos em muitos meses.

Adeus Bolivia, adeus frio! Pelo menos por uns dias.





Quando cheguei a San Pedro de Atacama senti, como já tinha sentido algumas vezes nesta viagem, que havia chegado ali 20 anos tarde demais. As casas de adobe caiadas de branco, os muros sobreados com formas geométricas, a harmonia entre a tradicional forma de construir casas à maneira colonial e os aspectos decorativos figurativos da cultura Atacamenha estavam presentes em toda a arquitectura, agora, meticulosamente preservada para atrair turistas. E é de turistas que esta pequena vila, de cerca de 2800 habitantes, vive. Tudo o que nela existe serve apenas um propósito: satisfazer as necessidades de viajantes nacionais e estrangeiros que infelizmente eram bastantes no dia em que lá chegamos e durante o tempo que lá estivemos – chegávamos a San Pedro na época alta.





Levou-nos mais de duas horas a encontrar alojamento que estava ou cheio ou era proibitivamente caro. No cansaço cedemos à realidade de que se queríamos ficar debaixo de um tecto teríamos que esquecer-nos dos preços Bolivianos. Ficámos na simpática e recém decorada Residencial Cruz de Atacama, com casa de banho privada que emanava cheiro a pinho, imaculadamente limpa e onde havia um chuveiro operado por esquentador com água quente 24 horas. Devo admitir que as primeiras vezes que tocava nas torneiras metálicas o fazia de forma rápida, o meu instinto ainda enviava mensagens ao meu cérebro de que ali podia apanhar choques eléctricos; os lençóis eram coloridos sem remendos ou gastos do uso, o colchão duro e novo. Verdadeiros luxos para dois ciclistas que nos últimos meses se tinham transformado em verdadeiros vagabundos.

A igreja de San Pedro de Atacama, com a sua arquitectura típica, uma mistura entre elementos coloniais e elementos da cultura atacamenha.

Depois de um bom duche saímos, a cheirar a shampoo e a sabonete, em busca de um restaurante, o Nuno ia-me oferecer o jantar. La Estaka foi o restaurante que escolhi, era acolhedor com uma lareira que difundia os cheiros a madeira queimada que se misturavam com os ricos aromas vindos da cozinha. As suas paredes estavam preenchidas com grandes pinturas e tapeçarias abstractas de cores ocres e vivas, e todo o local tinha um ar rústico sofisticado. Qualquer sítio em San Pedro de Atacama parece saído de uma revista de decoração de interiores, os objectos campestres sabiamente reinterpretados para proporcionar conforto e utilidade. Quando vi os talheres brilhantes, o copo de vinho, o guardanapo de pano, cheguei a temer ter-me esquecido de como utilizá-los, mas à medida que a comida ia proporcionando aos meus sentidos um verdadeiro festim, os meus braços articulavam-se com a minha boca em movimentos coordenados e correctos – afinal ainda sabia comer com garfo e faca.

Fomos beber uma terceira garrafa de vinho a um bar cool onde jovens viajantes dançavam ao som da house music sob o céu escuro penhado de estrelas. Havia um pátio com uma fogueira e sentámo-nos de garrafa na mão falando das próximas viagens que faríamos na companhia um do outro e do regresso à outra realidade. Éramos dois seres com uma paixão comum – as viagens, e já que vínhamos sobrevivendo sem escaramuças de maior a uma convivência inevitável de 24 horas, o mundo seria o nosso limite!

Sentia-me feliz. Há uns anos atrás havia comentado com alguém que celebraria os meus 30 anos num país distante, que estaria a viajar, e embora nessa altura isso me parecesse um sonho remoto, difícil de alcançar, nessa noite confirmei duas coisas importantes: que os sonhos têm muita força e que fazer 30 anos não custa nada quando concretizas os projectos de vida a que te propões!

De volta ao altiplano – Do Chile para a Argentina pelo Passe de Jama

Ali estávamos de novo, o frio que nos obrigou a por sobre o corpo mais de quatro camadas de roupa, o vento que nos embalava as bicicletas, umas vezes, empurrando-as, e outras, obrigando-nos a pedalar com esforço acrescido. E o silêncio e a ausência de presença humana. Mas havia uma coisa significantemente distinta no altiplano Chileno e Argentino – a estrada, que era alcatroada e a uma altitude sempre acima dos 4000 metros.

O altiplano Chileno, as suas paisagens lunares, mas com estradas fabulosas...

Ainda andávamos no altiplano Boliviano quando comecei a pensar que estando tão perto do Chile seria uma pena não conhecer o país mesmo que fosse na ponta tão desolada que equivale ao seu deserto gigante. Mas como sair do Chile sem ter que voltar às estradas tortuosas da Bolívia? – Entrando pela a Argentina. E foi o que acabámos por fazer. Uma semana em San Pedro de Atacama que incluiu uma visita à cidade de Calama, uma cidade mineira metida também no meio do deserto. Ali queríamos experienciar um pouco do que é o Chile não turístico, mas acabamos por visitar aquela que é provavelmente a cidade Chilena mais feia.

Do Chile ficou a impressão de um país extremamente desenvolvido e organizado, os rasgos latinos desta sociedade foram aparados com anos de ditadura, e este povo é agora um povo cheio de regras e proibições de fazer inveja a qualquer país do Norte da Europa. Sente-se um ar de bonança, de que a economia está saudável. Mas não é necessário ser perito em coisas de dinheiro para saber que essa riqueza provém sobretudo, da exploração, na opinião de muitos, descomensurada e totalmente insustentável dos seus recursos naturais.



Na parte que corresponde ao altiplano Chileno, faixa de terra salpicada de vulcões onde não vive vivalma, habitam, há milénios, rochas gigantes perfurando as densas areias que as rodeiam. Foram cuspidas certamente pelos muitos cones, em tempos fumegantes, circundantes e dão ao cenário o característico aspecto doutro mundo. E a cada quilómetro que avançamos avistamos vicunhas, os eternos lagos de águas azuis e margens brancas de sedimentos salinos. Os desníveis da estrada atestam que realmente só os Bolivianos constroem estradas ridiculamente inclinadas a altitudes acima dos 4000 metros, porque seria impossível para os vários camiões que fazem a travessia daquelas terras em direcção ao Atlântico e ao Pacífico enfrentar aquelas montanhas de forma diferente. As nossas pernas agradeceram.



Vicunhas



Chegamos a Paso de Jama, esperávamos uma subida de cerca de 400 metros, mas a informação no guia vinha incorrecta e subimos apenas cerca de 100 metros. Ali estavam: mais duas placas, mais uma fronteira, mais uma linha imaginária. De um lado o frio altiplano e do outro, mais frio altiplano com mais de 100 quilómetros até à próxima aldeia – Susques.

Passo de Jama, fronteira Norte do Chile com a Argentina

Humahuaca - as montanhas arco-íris da Argentina




Susques na Argentina parece uma aldeia Boliviana tocada pela ordem e a limpeza. Tem uma igreja bonita de paredes grossas e telhado de palha. A sua rua principal recebe a sombra das árvores que a percorrem. Encontrámos alojamento numa das ruas traseiras da aldeia e a dona da residencial olhou-nos com um ar ofendido quando lhe perguntámos se havia água quente nos duches. Estávamos de regresso à realidade dos países onde água quente, electricidade e aquecimento são condições mínimas para se ter uma residencial aberta, não os extra, pelos quais se tem que pagar mais, e isto claro, quando existentes. Mas os traços das gentes daquela aldeia eram certamente familiares, os Andes distribuíram pelas suas montanhas gentes de estatura baixa, pele castanha, cabelos negros esguios e olhos rasgados e isso as fronteiras não conseguiram dividir.

Susques e a sua bonita igreja

Os primeiros avistamentos das montanhas de várias cores.

Seguíamos nas montanhas mas a paisagem desértica altiplânica começava a dar lugar a montanhas de sedimentos estratificados dos quais se distinguiam diferentes cores. Devia ser fim de semana porque se viam muitos carros de domingueiros nas estradas. Depois de passar por uma vasta pampa onde acampámos, atravessámos as Salinas Grandes, um salar Argentino que se encontra a cerca de 3400 metros, e começámos a subida que nos levaria ao passe Abra Porterillos acima dos 4100 metros. A subida decorria a bom passo, curva após curva, mas depois de ladearmos a primeira montanha na sua parte baixa, uma visão assustadora impô-se – tal qual uma jibóia infinita, tínhamos à nossa frente uma estrada que subia toda a encosta da montanha em curvas e contra curvas que mais se assemelhavam a uma montanha russa. Fiquei sem fôlego só de olhar a subida que nos aguardava.





Comemos alguns frutos secos, bolachas, bebemos água e apostamos quanto tempo demoraríamos a terminar a árdua tarefa de subir aquela montanha. A tortura demorou cerca de uma hora, e a coisa foi um pouco bizarra, entre aplausos dos viajantes, os apitos dos camionistas, ás mãos na boca de uma passageira de um carro incrédula por ver dois ciclistas carregados a empreender tão vertiginosa subida, sentíamo-nos como se estivéssemos a participar na Volta à França. E se realmente já estávamos acostumados ao ocasional apito, que nem sempre se distinguia entre a saudação e o “sai da frente que estás a ocupar a minha estrada”, o pessoal que passava naquela estrada ou estava muito aborrecido no seu passeio de domingo ou eram realmente apoiantes fervorosos de ciclismo, todos eles.



O Abra Porterillos seria o meu último passe acima dos 4000 metros nesta viagem e não pude deixar de sentir uma certa nostalgia. A minha relação ciclística com as montanhas é uma de amor e ódio, e tudo aquilo que se ama, de uma forma ou de outra, acaba por se sentir falta. Entre o esforço dos músculos, a respiração ofegante e o suor no corpo, ia pensando, como sempre faço, no espetacular que seria descer aquela estrada, mas depois de começar a descida do passe que havia acabado de alcançar percebi que o verdadeiro espetáculo estava nas curvas sinuosas e intermináveis do downhill que começava a fazer. Era o maior de toda a viagem, e sem dúvida, um de elevar os níveis de adrenalina a picos bem altos. O vento soprava forte e as bicicletas pareciam folhas abanando a cada rajada, que ora estava de costas, ora de frente, obrigando-nos a pedalar mesmo durante a descida.



Os carros seguiam alguns, mais lentos do que nós, e as vistas eram tão abismais e tão impressionantes que me via impossibilitada de deixar a bicicleta rolar estrada abaixo, sobre o risco de não desfrutar a paisagem fantástica diante de mim. Entrávamos na Quebrada de Humahuaca, um vale de sedimentos que se acumularam nas camadas dos milénios, e deram a cada estracto uma cor forte e distinta da outra. Os vales eram escarpados, esculpidos, como raízes de uma árvore sem tronco de dimensões descomunais, pelas chuvas e os ventos.

Humahuaca e todo o conjunto de desfiladeiros que a compõem são Património Natural da Humanidade, mas infelizmente, as aldeias, que em tempo seriam pitorescas há umas dezenas de anos atrás, não passam hoje, de circos turísticos, onde tudo é caro e muito pouco é verdadeiramente genuíno. A Praça de Purmamarca, onde ficámos quatro dias, era uma amálgama de mantas, camisolas de lã, tapetes e outra parafernália artesanal igual à que havia visto em La Paz e na realidade um pouco por toda a América do Sul, mas a preços inflaccionados Argentinos. Também o artesanato vai sofrendo os impactos da globalização e vêem ligeiros os dias em que não haverá coisas típicas de parte alguma, só os productos que os turistas estereotipam como sendo tradiccionais de determinada parte, mesmo que não sejam.


De Purmamarca e das suas montanhas de sete cores, que nunca conseguimos fotografar sem apanhar cabos de electricidade, cabeças de outros turistas ou carros – inquestionavelmente um Património Natural rodeado por elementos muito pouco naturais. Pedalámos uns meros 24 quilómetros subindo para Norte para Tilcara. Tilcara era uma vila que embora vivesse sobretudo do turismo tinha alguma personalidade própria, e as várias lojas não dedicadas ao turismo assim o atestavam, como ferrarias, lojas com artigos de costura e papelarias entre outras. Ficámos no parque de campismo El Jardin à beira do rio, e como precisávamos de internet para actualizar os sites, e havia internet em Tilcara, ao contrario de Purmamarca, ali permanecemos por quase uma semana.


Numa das noites em Tilcara fomos jantar a um restaurante ao lado da praça principal supostamente turístico mas com música ao vivo. A comida foi desapontante e cara, mas o entretenimento valeu pelos 100 e tal pesos argentinos que pagámos. Um homem com traços indígenas, alto de pele morena, olhos grandes, com boa constituição óssea e uma barriga dando a crer que fazia mais no restaurante do que entreter os seus clientes, sentou-se no pequeno palco que havia em frente das mesas e com os seus dedos começou a soltar a música que havia dentro da sua viola. A doçura e profundidade da sua voz faziam-me lembrar o Pedro Barroso, mas as canções que cantava e as histórias que contava faziam parte do rico e vasto património oral desta região. O seu sentido de humor era apurado e entre canções, anedoctas e histórias aprendemos mais sobre a região do que lendo a papelada inútil que nos foi dada no posto de turismo. Aquela zona ainda tem fortes ligações com o seu passado indígena e as suas gentes sentem-se mais conectadas com os seus vizinhos do Norte, os Bolivianos, do que os seus conterrâneos Argentinos. As fronteiras são facas de fio aguçado que cortam a terra sem olhar a ela, mas o que a terra cria pelas suas peculiaridades, sejam animais, plantas, pessoas, montanhas, as fronteiras serão só e sempre uma linha artificial e imaginária, porque este planeta foi feito numa só esfera e é um só.



O nosso amigo Chileno, que conhecemos em Tilcara no parque de campismo - Ismael Berwart, cozinhou para nós uma deliciosa pasta com vegetais e natas. Depois de vários anos dedicados ao estudo de algo que nao gostava, Psicologia, Ismael decidiu viajar e conhecer a América do Sul. Depois de nos conhecer decidiu que a América Central seria feita em bicicleta. Boas viagens Amigo!

Ana e Benjamin – dias em Jujuy com uma família muito especial

As ruas de Jujuy

Não conseguíamos decidir o que fazer, tínhamos planos para regressar a La Paz, descer a Coroico pela famosa “Carretera de La Muerte”, ir pela selva até Trinidad e construir um barco adaptado às bicicletas descendo o Mamoré, tributário do Amazonas. O problema é que ia ser uma volta muito grande, de certa forma incerta, já que sendo totalmente inexperientes em matérias de navegação de rios, também não conseguíamos obter informação suficiente para concluir se esta empreitada era realmente possível. Acrescentando a este facto, eu tinha que começar a pensar no meu regresso, já que as minhas finanças só suportariam a minha aventura até ao fim do ano. E com todas estas dúvidas uma coisa era certa, nem eu, nem o Nuno estávamos com muita vontade de voltar ao altiplano, o que seria inevitável caso fossemos de novo para La Paz. De qualquer forma, eu tinha que ir a Sucre, tinha o meu cartão Multibanco em casa de uma amiga e necessitava recolhê-lo.

E no meio da indecisão de voltar a Norte, subindo por uma estrada onde o vento forte nos aguardava ou descer para Sul e adiar a decisão, fomos até Jujuy, 90 quilómetros a Sul de Tilcara, que nos levou uma tarde em bicicleta porque continuávamos a descer e tínhamos o vento a favor.

Depois de uma subida chegámos, como Benjamin nos havia descrito, à frente de uma casa que tinha um velho Land Rover, a julgar pelo seu estado não teria mais destinos a percorrer. À nossa frente e sobre nós, nos degraus e pátio da casa, cães e cachorros ladravam, cumprindo com as suas funções de guarda. Do fundo da rua gritavam vozes de criança enquanto corriam esbaforidas: “é aqui, é aqui! Não se vão embora, estamos à vossa espera!” Em pouco tempo estávamos rodeados por crianças e cães, que agora nos saltavam para cima, suponho que dando-nos as boas vindas, como fazem os cães, depois de entenderem que vínhamos com boas intenções. Tínhamos encontrado a casa de Ana e do Benjamin, mais uma das tantas casas que acolhem cicloturistas, espalhadas pela America Central.

Ana a nossa simpática anfitria em Jujuy

A Ana é uma mulher pequena, os seus olhos castanho claros são como luzes e a sua voz é como a de uma criança inocente, na sua boca desenha-se um sorriso fácil sempre coordenado com o brilho do seu olhar. Apesar do cansaço das últimas semanas de trabalho, Ana abriu os braços e deu-me um longo e apertado abraço quando entrei na sua tipografia, onde havíamos combinado encontrar-nos. Senti que já a conhecia, mesmo com as escassas palavras que havíamos trocado. “Benjamin, anda ver quem chegou! São os ciclistas de Portugal!” O ruído das máquinas de impressão parou e do meio delas saiu um homem. As expressões da sua cara denotavam o cansaço dos últimos dias, mas o calor que vinha das suas palavras e a genuína alegria que transmitiu quando nos viu quebraram de imediato a distância que pudesse haver entre nós. Ana e Benjamim explicaram-nos que estavam num período com muito trabalho, Benjamim tinha sido convidado para ir a Buenos Aires a um festival de teatro e mímica, e tinham que terminar uma empreitada na tipografia antes da sua partida. Há cerca de 20 anos atrás Benjamim percorreu a América do Sul com uma bicicleta carregada com mais de 100 kilos, de apetrechos para fazer rir e emocionar as audiências transeuntes das Américas. Um homem talentoso que construía os seus próprios instrumentos e os tocava, vários ao mesmo tempo, fazia também malabarismos, mímica e teatro. Ana e Benjamin são o tipo de pessoas que parecem abraçar o mundo e os seres que nele vivem, a sua família é composta por sete crianças, muitos cães e todos os viajantes do mundo que passam por Jujuy em duas rodas. Despedimo-nos depois de nos darem indicações de como encontrar a sua casa, onde ficaríamos por uns dias.



O Benjamin

Na pequena casa de Ana e Benjamin estavam, para além das sete crianças e dos muitos cães, dois cicloturistas, O Anthony da França e o Filipe do México. Este par improvável viu-se forçado a uma estadia em Jujuy mais longa do que a desejada: umas semanas antes tinham-se conhecido na estrada a caminho de Jujuy e tinham combinado ir fazer um passeio pela selva da Argentina, que acabou mal quando o Felipe caiu da parede rochosa que escalava partindo os dois pulsos. Via-se agora impossibilitado de seguir a sua viagem rumo ao México (havia começado em Ushuaya) e o Anthony, sentido-se responsável pelo o ocorrido, uma vez que tinha insistido no passeio. E era de facto uma história bizarra, de uma convivência íntima forçada e inevitável; com os dois pulsos partidos e com gesso até quase ao ombro, o Felipe tinha os braços incapacitados e era-lhe impossível fazer as coisas mais básicas como ir à casa de banho e comer, e o Anthony era agora obrigado a efectuar funções de enfermeiro e dar de comer, banho e ajudar o Felipe a fazer as suas necessidades. Eram de facto um duo pouco usual, o Anthony, um mochileiro nos seus vinte e tal anos de vida, que se havia tornado cicloturista há pouco tempo, tinha comprado uma bicicleta em segunda mão no Paraguai e adaptado umas mochilas de criança que vinham ainda com rodinhas ao suporte da sua bicicleta. O Felipe tinha mais já de cinquenta anos, casado e com netos, viajava pela a America do Sul, concretizando um sonho e aproveitando o tempo livre da sua reforma. A sua bicicleta estava bem equipada com peças adequadas à sua aventura. Mas eram um par simpático e no final partilhamos umas boas gargalhadas da caricata situação.


O Felipe

O Anthony



Os planos mudavam, mais uma vez, um dia antes da partida. Não queria fazer as estradas da Argentina. O meu instinto dizia-me que as bermas permaneceriam ausentes e o tráfico de camiões, continuaria pesado, agravando o facto de que a paisagem, depois de termos descido as montanhas, haver perdido todo e qualquer interesse. Ia seguir de autocarro de novo para as montanhas, de volta à Bolívia em direcção a Sucre. O Nuno seguiria na sua burra, rumo a Santa Cruz.

Fizémos um jantar de despedida em Jujuy na casa da Ana e do Benjamin, cozinhámos um esparguete colorido e preparámos uma salada de frutas. A mesa estava cheia, rodeada por amigos. As crianças davam uma energia alegre à casa, o Felipe contava as suas histórias sobre os mal entendidos verbais, que também existem por toda a América Latina, alguns bem curiosos por sinal e o Benjamin tocava as flautas que ele próprio havia feito com pasta de papel ao mesmo tempo que da sua guitarra saiam sons de músicas latinas e andinas. Olhei para a Ana e trocámos um olhar cúmplice. Existem no mundo pessoas muito especiais, que me fazem sentir privilegiada por ter a sorte de as conhecer, e esta família é sem dúvida um exemplo de bondade, alegria e espírito de partilha pouco comum nos dias que correm. As portas da sua casa e os seus braços parecem estar permanentemente abertos para receber e fazer da sua casa um lar para estranhos e viajantes que depois se transformam em amigos.

Com a família Torrejon



Nas próximas aventuras falarei dos meus dias sentindo na pele as consequências da situação instável na Bolívia e as pedaladas pelas terras baixas onde os missionários deixaram há
séculos passados um legado ainda hoje vivo.

E o Nuno tem também uma nova história e fotos no seu site em www.ontheroad.eu.com

3 comentários:

Anónimo disse...

Ainda bem que tudo tem corrido conforme os planos, que se fazem a cada dia que passa.
Agora quero saber como foi a travessia do Brasil.
Um abraço e boa viagem,
António Queirós

Xiclista disse...

Olá Joana
Tenho acompanhado a tua viagem desde o teu primeiro dia,com o Nuno.Por diversas vezes pensei em dar uma palavra de apoio, mas finalmente resolvi.Resolvi dizer o quanto os admiro pelo que vocês percureram até agora de bike,e pelas inúmeras vezes que me fizeram sentir aí, quando leio e vejo as vossas fotos.
Um abraço aos dois e que tudo corra bem até ao fim
Apolinário

fernando_vilarinho disse...

Muitos Parabéns pelos teus 30 anos num sitio tão bonito.
Os meus foram passados cá em Portugal e num dia que chovia tanto que parecia que o mundo ia acabar.

Já estão no Paraguai! Já estão (mais) próximos da ponta sul da américa.
Parabéns pelas fotos de sonho e os textos sempre com pormenores deliciosos!

Votos de continuação de Excelente Viagem,
fernando