Bolivia, Sucre, na capital indecisa de um pais a beira da guerra civil

"Queremos viajar, no temos recursos para comer, los niños tienen Frio Y Hambre!"




Era a quinta vez no espaço de quatro dias que passava no terminal de autocarros de Sucre. A situação era a mesma, não se sabia quando iam cancelar os bloqueios. Os campesinos haviam feito um cerco á cidade e ninguém entrava nem saía, incluindo comida que começava a escassear nos mercados, o seu preço subiu como uma flecha em direcção aos céus. No silêncio do terminal que, uns dias antes era um arco-íris de ruídos e vida, os destinos eram apregoados a alto e bom som, e era impossível descer a rua sem se ser oferecido passagens para os quatro cantos do país, lia-se agora apenas um cartaz silencioso - "Queremos viajar, não temos recursos para comer, as crianças tem Frio e Fome!" Na sala de espera, despojados, estavam os corpos cansados daqueles que foram apanhados de surpresa, na sua maioria campesinos, as suas mantas multicolores que servem de alforges pareciam desmaiadas, mais sujas, mais tristes, as crianças deambulavam como se estivessem perdidas, presas, longe das suas casas, das suas montanhas, das suas vidas inocentes, um grupo de mochileiros franceses jogava às cartas. Tinham todos vindo à cidade que os fez reféns sem aviso prévio, e muitos sem dinheiro, sem comida nem hora marcada para o regresso olhavam o vazio com olhar impotente. Os mochileiros encolhiam os ombros e imaginavam as palavras ampliadas com que descreveriam este evento nas suas viagens quando estivessem de regresso ao mundo confortável das suas outras vidas.





Vim a pensar no caminho de regresso a casa que país era este onde o bloqueio é a forma oficial de protesto? Evo Morales, o actual presidente, encabeçou muitos antes de estar do outro lado do poder, é inevitável que não pense algumas vezes que bebe do seu próprio veneno quando o país soluça eternamente sem nunca poder avançar nos dias perdidos de bloqueios. Em Sucre, capital constitucional do país onde se senta a Corte Suprema de Justiça, mais uma das coisas que teima em não entrar na minha geografia cerebral, a existência de duas capitais num mesmo país, La Paz sendo por sua vez a capital administrativa e onde efectivamente todas as embaixadas e sedes de governo estão sediadas. Bloqueios de um passado recente que escalaram a actos de violência foram justificados à custa de se discordar da localização das capitais. Paro para ler as notìcias de um jornal local: "Não reconhecemos a governadora traidora e instruímos nossos afiliados a não permitirem que nem ela e nem seus funcionários entrem em nenhuma das dez províncias do departamento; exigimos um aprofundamento da autonomia e não paramos o bloqueio enquanto esta não nos for concedida". Declaracoes de um dirigente campesino como justificação. Lembrei-me dos olhares lúgubres e perdidos das mulheres no terminal de autocarro as suas tranças negras poisadas sobre os ombros como lágrimas escuras, cansadas. As crianças que brincavam sem vontade e os homens que olhavam as mãos sem poderem agarrar os instrumentos à custa dos quais vem o seu sustento. Não são eles também campesinos? Num outro dia em que tinha ido ao terminal escutei alguém dizer que não ia esperar mais já tinha marcado um voo, as suas roupas ocidentais denunciavam os verdadeiros afectados pelo bloqueio - os campesinos. A classe alta terá sempre a oportunidade de apanhar um avião ou dar mais 10 bolivianos por meio quilo de carne. Um campesino não. E eis o remoinho de contradições que aos meus olhos, olhos de viajante, me é dado a entender - um bloqueio feito por campesinos que afecta sobretudo os próprios campesinos. Pus a chave na porta de casa, senti que ia ter que repetir aquele gesto muitas vezes porque as leis não se mudam de um dia para o outro e não me parecia que as partes envolvidas estivessem interessadas em ceder. A ironia das circunstancias era incontornavel, tinha tecto e comida, sempre tive! Os dias podiam transformar-se em semanas, estava em casa de uma amiga, amiga essa a quem os bloqueios não seriam mais do que um incómodo na sua rotina e um aumento suportável no seu orçamento domestico. Mas o que será necessário fazer para que aqueles que não podem e não têm, não estejam eternamente condenados a não poder e a não ter?



Sozinha de regresso a Bolívia

Depois de uma viagem de 5 horas que deveria ter sido uma viagem de 3 sai atordoada do autocarro no terminal fronteiriço de La Quiaca na Argentina. E certo que as viagens de autocarro me deixam refilona mas não me parece normal que se viaje em transporte publico esperando que este te deixe à porta de casa. A cada 10 minutos havia gente que entrava ou saia do autocarro a medida da proximidade dos seus lares, e isto numa viagem onde supostamente o autocarro parava apenas em três aldeias.Seria interessante ir de Lisboa ao Porto no expresso e pedir ao condutor "olhe deixe-me aqui que a minha casa e já ali a frente". Pedalar os 4 quilómetros que unem La Quiaca a Vilazon do outro lado na fronteira na Bolívia sozinha foi uma experiência curta mas interessante. Inevitavelmente eu era o centro para onde os olhares curiosos convergiam - uma mulher com uma bicicleta carregada e sem companheiro a vista constituiria sem duvida o ponto alto das coisas a observar naquelas paragens e um ou outro elemento do sexo oposto tentou a sua sorte em forma de oferecimento da sua prestável ajuda - mas não, não era necessária obrigada, afinal para pedalar uma bicicleta só são necessárias duas pernas e consequentemente uma pessoa - eu! De qualquer forma não deixo de admitir que ser mulher e viajante a solo tenha as suas vantagens, só assim explico ter o passaporte carimbado nos serviços fronteiriços Bolivianos por mais três meses, depois de uma conversa curta mas agradável com o oficial de serviço e, o Nuno, uns dias depois noutra fronteira, só por um mês, mesmo depois de ter explicado ao oficial que estava a viajar em bicicleta e necessitava de mais tempo.




Como aprecio viajar em bicicleta. A liberdade, o espaço...sentada no chão do terminal de Vilazon olho para o estado deteriorado de mais um autocarro onde terei que passar as próximas 13 horas e os cerca de 400 quilómetros. Com a inflação horária que parece afectar os transportes públicos em geral na América Latina, quantas horas serão na realidade? 16, é a resposta. O autocarro vai cheio. As gentes do altiplano Boliviano preenchem os assentos com os seus cobertores sintéticos com tigres estampados ou outra qualquer iconografia que confirma que o negócio dos cobertores feitos na China há muito canibalizou as mantas feitas em la pura de alpaca Andina dos tempos idos. No porta bagagens não cabe mais nada, mas continuam a chegar mulheres pequeninas de saias bojudas com sacos e mantas recheadas com coisas que parecem ser suficientes para montar um acampamento para um exército. Puxa-se a pequena escada que dá acesso ao tejadilho do velho veículo e tudo se acomoda. A saída é pontual e ao cair da noite passam na moldura da minha janela as montanhas suaves do altiplano e o pôr do sol rosado que me tinha apaixonado no sudoeste Boliviano, estou de regresso, sinto-me estranhamente como se estivesse em casa. Embalada pela música Boliviana e os solavancos das estradas ripiadas adormeço. A lua ilumina o contorno dos vales e serras, e desperto ao som de marteladas metálicas, o autocarro não está em movimento, tento localizar-me geograficamente mas é impossível, na Bolívia não é necessário muito para que nos sintamos no meio do nada, e era no meio do nada onde estava, dentro de um autocarro avariado. Volto a adormecer e passado um tempo que não consigo calcular sinto que estamos de novo em movimento. Por mais uma serie de vezes o ritual repetiu-se: paragem, marteladas metálicas, vozes masculinas e o veículo volta de novo a mover-se. Tento definir a paisagem que atravessamos naquela noite clara e vejo ravinas e precipícios ladeando a estrada, não existe qualquer tipo de marcação só o branco do ripio que desaparece ao virar de cada curva, fecho a cortina. O que quer que seja o problema que afecta o autocarro espero que não seja de travões. As 6 da manha chegamos a Potosi, e de luzes ligadas sem pré-aviso ou tempo para despertar somos avisados que devido a problemas na embraiagem temos que mudar de autocarro. Os protestos dos viajantes são inúteis. Asseguro-me que a minha fiel companheira segue comigo no mesmo transporte e pouco tempo tempo depois estamos de volta à estrada. Potosi, a cidade que nos tempos coloniais foi um dos motores económicos do império espanhol, das entranhas da qual se retirava a prata que sustentava a Diáspora e as ambições expansionistas ibéricas, fica para trás. Cheguei ás 8 da manhã a Sucre, uma cidade que me fez lembrar Évora, com as suas igrejas e monumentos pintados de branco. Património da Humanidade, Sucre é considerada por muitos como o epicentro do qual irradiou a campanha de independência do jugo espanhol na América Latina. O primeiro "Grito Libertário" deu-se em 1809, mas ironicamente a Bolívia foi o ultimo território a ganhar a independência em 1895.







Dolly, uma mulher especial


Cheguei a Sucre e nesse mesmo dia e como uma nuvem cinzenta inesperada sob um dia de sol, deu-se o bloqueio. Tinha sido um grande desvio solitário para Norte. Tinha perdido o meu cartão multibanco em Oruro, e andava a viajar ás custas do Nuno, desejava com urgência pôr as contas em dia e não queria arriscar ter o cartão enviado para algum local e ele desaparecer, como havia acontecido no passado. Nos nossos planos originais tínhamos pensado voltar a La Paz para descer a "carretera de la muerte" até ás Yungas e daí pedalarmos até Trinidad para construirmos um barco adaptado às bicicletas e navegarmos o Rio Mamoré até ao Brasil, e por isso Sucre estava na rota. Mas os planos mudaram porque o tempo e o dinheiro, sobretudo desde que tinha tomado a difícil decisão de estar em casa pelo natal, eram limitados, de forma que o autocarro que me levaria cerca de 600 quilómetros para Norte de Jujuy, evitando distâncias dispensáveis de estradas aborrecidas de tráfego intenso, sem bermas, vento contra que pareciam ser o único tipo de estradas existentes na Argentina. Ganharia assim uns dias para desfrutar o cicloturismo em passagens mais favoráveis, claro, isto antes de saber que iriam haver bloqueios que me paralisariam os movimentos por mais dias do que os esperados.

A Dolly e uma mulher pequena e atraente que concentra dentro do seu corpo energia que irradia e transborda, os seus olhos castanhos rasgados parecem ter o mesmo brilho e a vitalidade que teriam quando eram adolescentes. E irmã da Wilma, a amiga que conheci em El Alto, La Paz e na casa da qual tinha passado uns dias, parece-se muito com ela mas tem a força da vida vivida em função dos seus desejos. Para os padrões da mulher Boliviana, Dolly é uma pedra preciosa e rara. Desde muito cedo decidiu viver a vida como lhe parecesse melhor, mesmo que nem sempre fosse assim. Tirou um curso universitário no tempo em que as mulheres pertenciam aos homens com quem se casassem. Casou com o homem que escolheu e descasou por se ter desiludido com ele e com o casamento, partiu o coração a muitos homens e teve o coração partido, mas nunca deixou de ser independente e de fazer as coisas por vontade própria. Viajou e viveu em várias partes da Bolívia e trabalha agora como responsável financeira de uma ONG que incentiva as mulheres de Sucre a obterem formação em trabalhos técnicos desempenhados maioritariamente por homens, como carpintaria, ferraria e outras profissões. Este projecto tem sido um sucesso, porque as jovens aprendem a trabalhar por conta própria, a serem independentes e aos poucos as barreiras do preconceito numa sociedade onde a cultura do "macho" domina vão sendo derrubadas. Partilhamos conversas e cumplicidades femininas, seriam talvez duas gerações que nos separavam mas tínhamos muito em comum - o sermos mulheres, o não caminharmos por caminhos definidos por outros, por escutarmos o que vem de dentro de nós para traçarmos as nossas rotas. E num país tão politizado como a Bolívia em que um campesino no meio da montanha perdida te pergunta se és a favor ou contra Evo Morales, o presidente indígena, a politica foi, como não podia deixar de ser, um dos temas fortes das nossas discussões. Dolly votou por Evo, queria mudança, mas como em tudo onde se depositam grandes expectativas, e sobretudo no que toca a politica, a tendência é para se terem grandes decepções. O governo de Evo não dirige sem uma boa dose de contradições, os tempos que se vivem são tão incertos que se houvesse uma guerra cívil, isso não seria surpresa para ninguém! Sucre tem sido palco de violentas manifestações, a casa do reitor da principal universidade foi invadida e assaltada por estudantes sob o olhar impotente da policia que não age nem exerce a força com receio de retaliações, durante os dias que ali estive até que desbloqueassem o bloqueio. Algumas semanas antes haviam humilhado e agredido campesinos em público, um escândalo denunciado pela imprensa nacional que passou impunemente nas mãos das autoridades. A Bolívia está à beira da guerra civil. Ninguém parece entender-se ou desejar entender-se. Existem demasiadas discordias étnicas e raciais em rota de colisão com os interesses políticos e económicos. Haverao concerteza grandes convulsoes antes do pais poder caminhar rumo a um futuro mais sustentavel.



Santa Cruz de la Sierra - a caminho do Nuno

Estava a actualizar o meu blog, o que decidi fazer durante o tempo que estivesse em Sucre evitando o centro da cidade porque a qualquer momento poderiam haver manifestacoes que descambassem em violência, quando vi um autocarro passar, e outro, e outro. Paguei a Internet apressada e corri como uma louca rua abaixo em direcção ao terminal dos autocarros. Inesperadamente os dirigentes campesinos tinham levantado o bloqueio, não porque se houvesse chegado a acordo mas porque as imagens que tinham visto dos campesinos sem dinheiro e sem comida a espera de regressarem a casa os tinha levado a levantar o bloqueio por um curto espaço de tempo. Já havia perdido o ultimo autocarro para Santa Cruz, onde o Nuno me aguardava, mas garantiram-me que no dia seguinte não haveria bloqueio. Podia finalmente seguir.

Tinham sido uns dias estranhos, tinha voltado a viver uma vida quase rotineira, a viver debaixo de um tecto, a cozinhar almoço e jantar, a tomar banhos diariamente, a ver televisão, mas dentro daquela aparente normalidade não deixava de sentir que as razões que a causavam eram tudo menos convencionais. Almocei com a Dolly e prometi que nos veríamos em breve, como faço com todos aqueles a quem quero muito e dos quais me é difícil despedir.

Ia a caminho do Nuno, a caminho das terras baixas, a caminho do calor, seria o derradeiro adeus aos Andes, infelizmente feito dentro de mais um autocarro. A noite, desta vez sem luz e escura para iluminar a transição das montanhas secas para as encostas verdes das Yungas. Toco o vidro do autocarro com um misto de saudade e tristeza como que querendo acariciar aquelas serras uma ultima vez. Digo baixinho - até breve! E por certo ali voltarei um dia!


Acompanhem as aventuras do Nuno em http://www.ontheroad.eu.com/

4 comentários:

Joana disse...

Olá Joana!
o meu nome também é Joana e em julho vou partir numa aventura pela América do Sul!
Como todos os pais...o meu, preocupado como ele anda, descobriu o teu blog ao acaso e sugeriu que eu desse uma vista de olhos! Fiquei surpreendida pela situação em que a Bolívia se encontra e fez-me mais uma vez pensar que nós só conhecemos o que realmente se passa no mundo, assim que sairmos da nossa pequena "bubble"!
Prezo em saber que há pessoas como tu, aventureiras, que não se conformam com labels ou destinos traçados e que se preocupam com causas maiores.
Se houver algum conselho que eu possa receber...?
beijinho

Anónimo disse...
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Anónimo disse...
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Diogo Mendes disse...

Oi

estou de momento em Puno, sigo para a Bolivia dentro de horas...enquanto enviava uns mails a familia fiz uma pesquisa e dei com o teu Blog...como e obvio, estou fa!

boas viagens!